24 abril 2003

J�o Com Medo

J�o tinha muitos medos, tantos medos que tinha uma cole��o deles.
Uns grandes outros pequenos, uns escuros, outros claros, uns azuis, outros cinza.
Tinha tantos que tinha medo de ter medo.

E assim vivia escondido dentro dele mesmo, sem vontade de sair de seu pequeno mundo medroso

Um dia, um medo pequeno, pequenino mesmo, conseguiu passar por entre as veredas da casca de ovo de J�o e ficou � espreita.

Quando J�o passou em frente, ele pulou e disse:

"Bu!"

J�o, � claro, se apavorou e ficou pasmo, apalermado mesmo, defrontado com um medinho � toa desses.

Desse dia em diante, J�o resolveu deixar a cara de bobo apavorado em casa e saiu com uma coragem nova.

Mas, mal botou o p� fora da sua caixa de f�sforos, se assustou novamente. O medinho chamou uma turma grande... uns cinco ou seis... e estava do lado de fora esperando a bola chegar.

J�o ficou at�nito. De p�, de frente, em frente a meia d�zia de pequenos medos, mais ou menos da altura de J�o. T�o rotos e encardidos, mas esperando uma bola que nunca chegava.

Um medo, maior que os outros, passou em frente e perguntou:

"Quer jogar conosco?"

J�o, sem pestanejar, disse:

"N�o sei jogar!"

E eles:

"A gente ensina!"

De bola em bola (que afinal chegou), de p� em p�, J�o fica t�o roto e encardido como os outros medos (pequenos, grandes) e teve muito medo de si mesmo.

Voltou para a sua concha fechada e ficou esperando os medos, o tempo, a vida passar.

J� velho, ele p�e o p� para fora. Os medos pequenos cresceram e nem estavam mais rotos e encardidos, at� gravada igual a de J�o usavam e tinham os seus pequenos medos que andavam de m�os dadas com os mesmo.

E estes ex-medinhos andavam em carros, com suas janelas fechadas, com medo de falar com os medinhos que pediam dinheiro em sinais, ou que botavam navalhas nos pesco�os ou que jogavam bolinhas ou que carregavam medos ainda menores nos colos, pequenos medos que geravam outros...

J�o havia feito isso antes... de tanto ter medo, n�o quis viver.

E os medinhos que jogaram bola com J�o, agora eram J�os cada um em sua forma e jeito.

J�o sentou no ch�o da rua, perto de outro que fedia e chorou porque sempre foi J�o Com Medo, nunca se deixou ser J�o Sem Medo, J�o Valente ou mesmo J�o Gente.

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